quarta-feira, março 28, 2007

Tenho no bolso...

Tenho no bolso 20 zlts e conto governar-me, até ao fim do mês, com algum dinheiro que receba de umas aulinhas extra. São quatro pratos de pierogi's, cinco barsz's, dez cheeseburgers do Mcdonald's ou dois kebabs - se o meu amigo tunisino me fizer desconto! Tenho no bolso vinte zlts!
Os vícios são assim... anda não anda no vai não vai, compra não compra, cede não cede e, por fim, até a compra de uma pastilha parece um crime tão atrozmente imoral que a até a dita nos sabe mal. Mas cedi: rolei dez vezes o cartão entre os dedos até chegar ao multibanco e aí outras dez - a criatura à minha frente resolveu deitar fora, entre cinco operações, todos os plásticos de pensos higiénicos que arrecadara na mala. Por fim lá me cheguei a ela, com a boca quase colada à orelha e com hálito de quem tinha dormido pouco e acordado às seis sem lavar os dentes e sem ter ter comido nada até às cinco da tarde: "Vá, porra!" - isso mesmo... disse-lhe em português o que me daria demasiado trabalho a dizer em polaco ou inglês... estava nervoso... muito nervoso. Desviou-se e saquei o dinheiro. Dois polícias miravam-me de longe - a mim ou ao pedinte que passava ao meu lado... já nem sei.
Comprei. É mau, bem sei, mas são assim os vícios - já o devia ter aprendido com o meu pai - e agora queria chegar a casa quanto antes. Nunca as ruas me pareceram tão cheias e obstruídas e vinte zlts, os que me sobraram, me pareceram tão pesados.
Cheguei a casa e desfiz a embalagem... estava quase... era só ir à cozinha buscar o papel de alumínio e um isqueiro.

É algo que não se explica, que apenas se sente, aquela força que vem não sei de onde, como uma música...
Acendi um pau de incenso num suporte sobre o alumínio, para não queimar o tampo da mesa e pus as colunas no máximo, e estou agora certo de que nunca me soube tão bem ter só aqueles 20 zlts... o Brassens e a discografia completa cantam no meu leitor de cd's...

São terríveis estes vícios... abusam da minha tendência mística para gastar dinheiro... mas fiquem lá com um poeminha dos dele, que já cá não vinha há muito tempo e vocês merecem... e nem vos cobro!

Au village, sans prétention,
J'ai mauvaise réputation.
Qu'je m'démène ou qu'je reste coi
Je pass' pour un je-ne-sais-quoi!
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde médit de moi,
Sauf les muets, ça va de soi.

Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet.
La musique qui marche au pas,
Cela ne me regarde pas.
Je ne fais pourtant de tort à personne,
En n'écoutant pas le clairon qui sonne.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde me montre du doigt
Sauf les manchots, ça va de soi.

Quand j'croise un voleur malchanceux,
Poursuivi par un cul-terreux;
J'lance la patte et pourquoi le taire,
Le cul-terreux s'retrouv' par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En laissant courir les voleurs de pommes.
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout le monde se rue sur moi,
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi.

Pas besoin d'être Jérémie,
Pour d'viner l'sort qui m'est promis,
S'ils trouv'nt une corde à leur goût,
Ils me la passeront au cou,
Je ne fait pourtant de tort à personne,
En suivant les ch'mins qui n'mènent pas à Rome,
Mais les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Non les brav's gens n'aiment pas que
L'on suive une autre route qu'eux,
Tout l'mond' viendra me voir pendu,
Sauf les aveugles, bien entendu.

Mauvaise réputation, 1952, J'ai rendez-vous avec vous

terça-feira, março 27, 2007

Nacionalismos e complexos...

A minha vida... é muito agitada!
Domingo de manhã, aí pelas 15.00, meti-me a pé, ribanceira acima, por certo monte que se avista não longe da minha casa - Monte Kosziuszki e assim denominado em homenagem a certo herói da independência polaca.
Às avessas com o nacionalismo polaco, que não poucas discussões tem motivado com alguns conhecidos que ainda me falam, resolvi visitar esta obra, monte artificial que alguns ergueram e outros, fazendo rodar a cestinha da subscrição pública, têm vindo a restaurar. Na realidade, o monte ergue-se sobre outro monte, este natural, no sopé do qual toda a cidade, para lá e para cá do Vístula, se espraia. A vista é extraordinária, pesem embora os 4 zlts/1 euro que paguei... para subir um monte. Monte cónico, a lembrar outras duas tumbas de reis polacos de uma Polónia que ainda não existia, que há em Nowa Huta e que já teria visitado, não fosse a hora e meia de tram e as velhas de bigode e os trabalhadores a cheirar pior das botas que eu... que já vai fazendo calor.
Tornando ao monte... meti por umas escadas muito inclinadas que saiem de uma pequena fortificação sobranceira a uma rua, hoje uma galeria de arte, até outra fortificação, mais acima. Restolhando por um caminho de cabras, subi mais duzentos metros até certa praça de armas, enorme, e que dominava todo o monte e a cidade - qual forte de Monsanto... para quem já lá esteve - vestígio da dominação austro-húngara. No centro desta, lá está o tal monte. Há para lá caminho de esfalto, mas eu sempre sou do campo...
Estas coisas de monumentos grandes... velhos pelintras, que não pagam bilhete, a contar histórias da guerra a jovens casalinhos fingindo estar atentos; gente com a marmita do feijão e o lorpa dos dentes podres a apalpar a coxa da namorada sob a mini-saia curta; japoneses de máquina-fotográfica com tripé, que tão pequeninos, com vento forte e a máquina na mão, não há maneira da foto não sair tremida. Depois, aquela coisa do monumento grande, ademais fálico, apontado ao céu.
Povo que não tem dúvidas da sua singularidade não constrói monumentos grandes... tem-na na língua que fala, na maneira de estar e de ser - assim o creio. Já o monte, assim grande e fálico... há-de haver aí certos complexos...
E, porque os tugas são exemplo em tudo, veja-se o Cristo-Rei, devaneio ascético do ditador, que com pena se extraiu ao seminário! Ainda bem que tem os bracinhos abertos... não fosse haver dúvidas!

domingo, março 25, 2007

Na Eslovaquia...


Olá!

Estão a ver as duas criaturas? E uma terceira, deitada no chão?
Pois bem: um destes jovens eslovacos saiu a passear o canito. Pelo caminho, na praça central desta bela aldeia eslovaca nas imediações de Poprad, e da qual não me recordo do nome, encontrou o amigo. Cumprimentaram-se, o amigo fez uma festinha na cabeça do bicho e encetaram conversa. O bicho, entratanto, abocanhou uma ponta de casaco que o amigo tinha atado à cintura. Esta é uma das 13 fotografias que tirei à cena, porque não sei se o casaco era de marca, ou se o amigo o estimava particularmente, mas, tratando-se de um pitt bull, perderam meia hora a tentar abrir-lhe a bocarra.
Não acenaram com um pauzinho ou com outro casaco! Não lhe fingiram dar qualquer biscoito! Não lhe deram uma palmada! Não... a vida passa lentamente nesta aldeia e perderam, nada mais nada menos que meia hora neste afã.

O curioso é que um deste jovens perdera, duas horas antes, uma hora e meia a explicar-me porque haviam subsistido, por tanto tempo, as ditaduras nos países leste...